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É fato histórico, narrado pela Bíblia, que Jesus nasceu nas cercanias de Belém e que a criança foi posta em uma manjedoura já usada pelos animais. Este detalhe é repetido três vezes na narração do Evangelho de Lucas.
O Menino que nasceu, é, em certo sentido, um menino como os demais. Não havia nele nenhum traço que pudesse indicar a sua origem divina. Mas a extraordinária precariedade de sua primeira acomodação (uma manjedoura, no meio do esterco dos animais), inaceitável até mesmo para os pobres pastores que tinham pelo menos o orgulho de uma tenda, sensibiliza a quem por lá passa por acaso ou a quem se sente atraído para aquele lugar por uma voz do alto.
Para qualquer ser humano, mesmo para quem não crê, o desconforto dessa jovem família sem teto é um convite para abrir o coração.
Abrir o coração para saber discernir o que tem valor e o que não conta aos olhos de Deus.
Abrir o coração para o verdadeiro sentido do Natal: festa estritamente espiritual, em que ao recordar o Nascimento de Jesus Cristo, celebramos a plenitude da redenção e da salvação.
Abrir o coração e perguntar-se: onde estão os sinais da presença de Deus?
Olhando ao nosso redor e confrontando o sentido do Natal que é momento de reflexão e de intensa experiência espiritual na busca de um crescimento na vida de fé, no relacionamento com Deus a quem devemos amar acima de tudo e no relacionamento fraterno com os irmãos e irmãs, promovendo o amor, a paz, a justiça e a fraternidade, com o que acontece fora, tem-se a impressão de que esses valores não são assimilados, nem mesmo por muitos cristãos que, ao contrário, pensam e agem como pagãos, sem nenhum compromisso com o Reino de Deus, que Jesus, tendo se encarnado, veio inaugurar.
Então, ao invés de carreata para Jesus que deveria ser o protagonista da festa, faz-se carreata para papai noel, personagem criado pelo consumismo. Então, a festa do Natal que deveria ser momento de intensa fraternidade, torna-se desgastante pela ganância e pela exploração do comércio.
Então, onde é que estão os sinais do Natal? Como é que vamos desejar-nos “Feliz Natal”?
Para quem acolhe o anúncio dos anjos, muda o sentido de cada acontecimento em particular, muda a força interior com que se procura viver, muda o conceito a respeito do mundo e da história.
Jesus acolhido no coração com amor, muda a vida, muda a história. Tudo é novo. Tudo adquire sentido, toda dor vem irrigada de esperança, toda alegria é repleta de moderação e de franqueza; todo trabalho é vivido como algo que constrói, que edifica a dignidade, que promove a justiça.
Então este Natal é verdadeiramente para todos nós e pode realmente mudar a nossa vida. Não celebramos o Natal apenas para comemorar um acontecimento do passado, ou porque impelidos por sentimentos de comoção e ternura suscitados em nós pelo Menino, mas para vivermos o Natal nos deixando envolver pelo anúncio em termos pessoais, sociais e religiosos. No sentido pessoal, vivendo a vida com sobriedade, redimensionando os nossos desejos, de ter e de satisfazer o nosso egoísmo; no sentido social, buscando a justiça nos relacionamentos com Deus e com os outros e preocupando-nos com o bem comum. No sentido religioso, dando louvores e glória a Deus e servindo-o no espírito das bem-aventuranças.
Abramos o nosso coração e nos convertamos sinceramente, porque há tantos - melhor ainda, somos tantos - que dizem crer em Cristo, que proclamam que o Menino do presépio é Mestre e Senhor, mas que na hora do discernimento dos valores preferem muito mais o ter do que o ser.
O ter não é pecado. Também Jesus por um tempo teve a sua casa, seu trabalho e seu estilo de vida digno, semelhante àquele da gente trabalhadora de seu povo. O que é pecado é por o ter acima dos valores mais importantes da vida.
É essa a mais profunda “questão moral” que está na raiz de tantos males do tempo presente: preocupar-se demasiadamente com o ter e menosprezar o ser.
O fascínio do Natal, mais forte que todas as luzes multicoloridas acesas pelo consumismo, está aqui: encontrar o sentido da Presença de Deus, o sentido da vida, do homem, das coisas simples, sentido do qual ninguém deveria afastar-se, porque nele reside o verdadeiro, o autêntico.
Neste sentido, o Natal é Feliz, se acolhidas as indicações da Bíblia e da Liturgia da Igreja.
Mons. Wilson Galiani
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